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ÓVNI

por Luiz Celso de Matos

 

No Brasil, os meses que compõem o primeiro trimestre estão sendo considerados os campeões em visitas de outros seres; os extraterrestres. Vários grupos de naves espaciais buscam zonas rurais onde, supõe-se, há menor chance de serem vistos.
Adoro Curitiba, mas no sofrível carnaval curitibano apanho minha mochila e minha moto e saio sem destino. Faço camping selvagem.
A história do meu contato com um ser de outro planeta pode ter sido fruto de um estranho sonho ou de uma abdução.  Não sei! Só sei que pretendo fazer um relato daquilo que me lembro.
De repente estava frente a frente com um camarada estranho, experimentando um amistoso papo telepático. Minha ansiedade era gigantesca. Sempre tive uma grande curiosidade em saber algo sobre vidas em outras galáxias. Obviamente, durante o encontro, quis fazer — e fiz — muitas e muitas perguntas ao visitante, que me pediu calma. Era muito difícil para ele entender a nossa língua. A recíproca, obviamente, também não deixava de ser verdadeira. Quando falei, por meio de gestos, ele simplesmente chacoalhou suas mãos (parecidas com patas de rãs), sinalizando que não sabia do que se tratava. Para nós, quando falamos, gesticulando, desenhando com os dedos figuras no ar, já imaginamos qualquer forma geométrica: quadrada, redonda... Quanto a eles, ainda não tinha descoberto o que fazer para que pudesse existir uma troca de informações.
Sou musicólogo. Tentei mostrar-lhe umas partituras, mas o estranho ser me olhou com ar de superioridade e, com cara de bicha francesa, fez um muxoxo. Quando viu uma foto minha regendo uma orquestra composta de meninos, colocou seu indicador na foto e, com a mão espalmada, bateu no seu peito e deu curtos pulinhos, grunhindo. Deduzi que ele era um maestro também.
No fim de fevereiro, eu já tinha apresentado a caipirinha com cachaça e limão galego ao meu novo amigo, que gostou da bebida, pediu a receita e mais uma dose. Mostrei-lhe também uma revista de mulher pelada, e ele, com cara de seminarista malandro, despistou e embolsou a revista.
Com o passar do tempo, nosso diálogo já estava mais afinado. Numa noite, após fumar um cubano legítimo durante uma partida de truco, que ganhou numa melhor de três, ele me contou o porquê de eles procurarem a Terra durante os nossos primeiros meses de cada ano. Era a época escolhida para trazerem seus jovens adolescentes para virem assistir ao Big Brother Brasil. Perguntei se eles não possuíam televisão. Ele tirou seu capacete e, apertando uns botões, o transformou em segundos em uma tela ovalada, com imagens e cores de alta resolução. Havia um fundo musical. Tentei ler as notas musicais e fiquei aterrorizado. A nossa escala musical (Dó-Ré-Mi, etc) era muito limitada comparada à deles, que era totalmente desconhecida para mim. O som polidimensional que ouvi quase me fez chorar de emoção. Meu amigo do outro mundo, vendo minha angústia, clicou na imagem do regente na tela e imediatamente a cena e a música mudaram. Estarreci. Apareceu a imagem de jovens curtindo educadamente uma música alegre e relaxante, muito superior aos nossos clássicos, a qual me causou a nítida impressão de estar vendo anjos voando. Senti a orgástica sensação de uma singular paz interior.
Totalmente maravilhado com o que via, perguntei qual o interesse que eles poderiam ter no Big Brother. Imediatamente ele respondeu, telepaticamente:
— Nenhum! Só que nossos jovens devem aprender o que os meios de comunicação não devem fazer para incentivar ou estimular uma nação a promover: apologia ao homossexualismo, o uso abusivo de álcool, a futilidade, a luxúria, a comportamentos imaturos e imbecis. Essas coisas contribuem para a perda dos valores necessários à manutenção permanente de uma sociedade intelectualmente sadia.
Abaixei a cabeça, envergonhado. Eu era uma dessas ingênuas pessoas que gastavam tempo e dinheiro telefonando para colocar ou tirar um daqueles babacas do paredão.   Ao sentir-me indefeso, abraçou-me fraternalmente.
Se essa história aconteceu, não tenho certeza. Porém, comprei a sábia idéia. Doravante, meu tempo e meus suados tostões serão aplicados numa área mais inteligente e mais aproveitável. Talvez até, na compra de algum terreninho em outro planeta.

*Luiz Celso de Matos é auditor fiscal aposentado e técnico em Reabilitação de Dependentes Químicos
E-mail: andrausdematos@yahoo.com.br


 
 

 

 

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